A perda de uma gestação é uma experiência que pode trazer muitas dúvidas. Quando isso acontece de forma recorrente, uma das perguntas mais frequentes é: por que isso está acontecendo?

Nem sempre existe uma única resposta. As perdas gestacionais recorrentes podem estar relacionadas a diferentes fatores, e a investigação precisa considerar a história clínica e reprodutiva de cada casal.

Em 2026, a American Society for Reproductive Medicine (ASRM) publicou uma atualização de suas recomendações para avaliação e manejo das perdas gestacionais recorrentes. O documento substitui a recomendação anterior, publicada em 2012, e reúne as evidências atuais sobre diferentes aspectos que podem fazer parte dessa investigação.

Entre os pontos que merecem atenção está a participação do fator masculino.

O que são perdas gestacionais recorrentes?

A nova diretriz da ASRM considera a perda gestacional recorrente a ocorrência de duas ou mais perdas gestacionais.

A investigação desses casos pode envolver diferentes aspectos da saúde reprodutiva. Isso acontece porque uma perda pode estar associada a fatores genéticos, anatômicos, hormonais, metabólicos, imunológicos e também a outros elementos relacionados à saúde do casal.

Um dado importante apresentado pela publicação é que aproximadamente 50% a 60% das perdas gestacionais no primeiro trimestre estão associadas à aneuploidia embrionária, ou seja, alterações no número de cromossomos do embrião. A frequência dessas alterações também apresenta forte relação com a idade materna.

Por isso, diante de perdas recorrentes, não é adequado partir da ideia de que existe necessariamente uma única causa.

E o homem? Ele também deve fazer parte da investigação?

Esse é um dos pontos relevantes da atualização.

Historicamente, grande parte da atenção diante de uma perda gestacional esteve concentrada na saúde feminina. Entretanto, a recomendação atual reforça uma avaliação que também considera aspectos da saúde paterna.

Isso não significa que o fator masculino seja responsável por todas — ou mesmo pela maioria — das perdas gestacionais recorrentes.

Significa que, em determinadas situações, ele também pode precisar ser investigado.

A recomendação de 2026 aponta que, diante de perdas gestacionais recorrentes sem causa explicada ou quando existe infertilidade concomitante, pode ser considerada a avaliação em urologia reprodutiva, incluindo a investigação da fragmentação do DNA espermático.

O que é fragmentação do DNA espermático?

O espermatozoide transporta parte do material genético que dará origem ao embrião. Por isso, além de características tradicionalmente avaliadas no sêmen, a integridade desse material genético também pode ser relevante em determinados contextos reprodutivos.

A fragmentação do DNA espermático corresponde à presença de danos ou quebras no DNA transportado pelo espermatozoide.

Esse ponto é particularmente interessante porque mostra que a avaliação da fertilidade masculina pode ir além dos parâmetros convencionais do espermograma.

A nova recomendação, entretanto, não propõe que esse exame seja realizado indiscriminadamente em todos os casais. Sua indicação deve considerar o contexto clínico e reprodutivo.

O espermograma normal exclui um possível fator masculino?

Não necessariamente.

O espermograma é um exame fundamental para a avaliação da fertilidade masculina, mas analisa parâmetros específicos do sêmen e dos espermatozoides. A investigação da integridade do DNA espermático responde a uma questão diferente.

Por isso, em situações selecionadas, uma avaliação mais aprofundada pode ser considerada mesmo quando a investigação inicial não fornece uma explicação para as perdas.

É justamente aí que a avaliação especializada em urologia reprodutiva pode contribuir para definir quais exames realmente fazem sentido para aquele paciente, evitando tanto uma investigação insuficiente quanto a solicitação indiscriminada de exames.

A investigação não se limita ao fator masculino

Apesar desse avanço, seria incorreto interpretar a nova recomendação como uma mudança de foco da mulher para o homem.

O que a publicação propõe é um olhar mais abrangente.

Entre os diferentes aspectos discutidos na avaliação das perdas gestacionais recorrentes estão alterações cromossômicas, condições relacionadas à cavidade uterina e outros fatores clínicos que podem ser considerados de acordo com cada caso.

Uma das recomendações que ganha destaque é a possibilidade de realizar, quando disponível, a análise cromossômica do tecido da perda gestacional. Essa informação pode ajudar a compreender se uma alteração cromossômica esteve relacionada àquela perda e contribuir para direcionar os próximos passos da investigação.

A avaliação da anatomia uterina também permanece como parte importante da investigação, permitindo identificar determinadas alterações que podem estar relacionadas às perdas gestacionais.

O que muda para os casais que enfrentam perdas recorrentes?

Talvez a principal mensagem da atualização seja que a investigação precisa ser individualizada.

Nem todos os casais precisarão realizar os mesmos exames. Da mesma forma, encontrar uma alteração em determinado exame não significa, isoladamente, que ela explique todas as perdas anteriores.

A história reprodutiva, a idade, os antecedentes clínicos, os exames já realizados e a presença ou não de infertilidade são alguns dos elementos que ajudam a equipe médica a definir o caminho da investigação.

E isso também significa olhar para ambos os parceiros quando houver indicação.

A inclusão da avaliação masculina em situações específicas contribui para uma compreensão mais ampla da reprodução: a formação e o desenvolvimento de um embrião envolvem material genético materno e paterno, e a investigação deve acompanhar a evolução das evidências científicas.

Ciência e individualização devem caminhar juntas

As novas recomendações da ASRM não oferecem uma explicação única para as perdas gestacionais recorrentes — e esse é justamente um ponto importante.

Elas reforçam que estamos diante de uma condição complexa, que pode envolver diferentes fatores e exige uma abordagem cuidadosa.

Para casais que vivenciaram duas ou mais perdas, buscar uma avaliação especializada pode ajudar a compreender quais investigações são indicadas para aquela história específica.

Mais do que procurar um único responsável, investigar perdas gestacionais recorrentes significa olhar para o casal, para sua história e para as evidências disponíveis.

Referência científica Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine. Recurrent pregnancy loss: a committee opinion. Fertility and Sterility. 2026.

Acessar a recomendação completa da ASRM